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O agro além da porteira: tecnologia, logística e valor agregado definem o próximo ciclo

O agronegócio brasileiro bate recordes e impulsiona a economia, mas o desafio agora é ampliar produtividade com sustentabilidade, reduzir gargalos logísticos e transformar produção em cadeias de maior valor.

Por: Redação

23/05/202606h41

Foto O agro além da porteira: tecnologia, logística e valor agregado definem o próximo ciclo

O agronegócio brasileiro costuma ser apresentado pelos seus grandes números: produção, exportações, área cultivada, safra, produtividade e participação na balança comercial. Esses indicadores são importantes e ajudam a explicar por que o setor se tornou uma das bases mais relevantes da economia nacional.

Em 2025, a agropecuária cresceu 11,7% e foi o setor que mais impulsionou o resultado do PIB brasileiro, segundo o IBGE. No mesmo ano, o agronegócio registrou exportações de US$ 169,2 bilhões, valor recorde, equivalente a 48,5% de tudo o que o Brasil exportou, de acordo com o Ministério da Agricultura e Pecuária.

Esses dados confirmam a força do campo. Mas também abrem uma pergunta estratégica: o próximo salto do agro brasileiro virá apenas de produzir mais ou de produzir, processar, escoar e vender melhor?

A resposta importa porque o agro moderno já não cabe dentro da porteira. Ele depende de uma rede de tecnologia, crédito, pesquisa, logística, máquinas, armazenagem, seguros, conectividade, energia, assistência técnica, certificações, sustentabilidade, indústria, serviços e inteligência de mercado.

A fazenda continua sendo o ponto de partida. Mas o valor econômico do setor se forma em uma cadeia muito mais ampla.

O produtor que decide plantar, irrigar, colher, armazenar ou vender está conectado a fatores que vão além do clima e do solo. Depende do custo do crédito, do preço internacional das commodities, do câmbio, da disponibilidade de fertilizantes, da capacidade de armazenagem, da qualidade das estradas, da existência de ferrovias, do acesso a portos, da previsibilidade regulatória, da tecnologia disponível e das exigências de consumidores cada vez mais atentos à origem dos produtos.

É por isso que falar de agro hoje é falar também de economia, geopolítica, inovação e desenvolvimento regional.

O Brasil se tornou potência agropecuária porque combinou condições naturais, pesquisa, adaptação tecnológica, expansão produtiva e capacidade empresarial. A Embrapa registra que a ciência teve papel decisivo na transformação do país em referência mundial em agricultura tropical, especialmente ao adaptar sistemas produtivos às condições brasileiras e transferir tecnologia para diferentes cadeias.

Mas a manutenção dessa posição exigirá mais sofisticação. A agenda futura não será definida apenas por hectares e toneladas. Será definida por produtividade com menor impacto ambiental, rastreabilidade, uso eficiente de água, redução de perdas, bioinsumos, agricultura de precisão, integração lavoura-pecuária-floresta, energia limpa, conectividade rural, gestão de dados e capacidade de responder a mercados mais exigentes.

A competitividade também dependerá de logística. Um produto agrícola pode nascer competitivo no campo e perder parte dessa vantagem no caminho até o porto ou até a indústria. Frete caro, estradas ruins, baixa armazenagem, concentração de rotas e dependência excessiva do modal rodoviário reduzem margem, aumentam risco e tiram previsibilidade.

Por isso, corredores logísticos, ferrovias, portos, armazéns e terminais não são temas periféricos. Eles definem o quanto da eficiência produtiva chega, de fato, ao mercado.

Ao mesmo tempo, há um desafio ainda maior: agregar valor antes de exportar ou vender. Produzir grãos, frutas, cacau, café, algodão, leite, carne, mel ou mandioca é importante. Mas o desenvolvimento se aprofunda quando essas cadeias avançam para processamento, marca, certificação, embalagem, qualidade, origem, indústria de alimentos, bioindústria, cosméticos, insumos, tecnologia e novos canais de venda.

É nessa passagem que o território ganha mais. Quando uma região apenas produz matéria-prima, parte relevante do valor pode ser capturada fora dela. Quando processa, qualifica, certifica, embala, transforma e vende com identidade, cria empregos mais diversos, fornecedores locais, conhecimento técnico e maior capacidade de negociação.

A Bahia oferece bons exemplos dessa discussão. O Oeste mostra a força do agro de escala, tecnologia e grandes feiras de negócios. O Sul carrega a oportunidade de transformar cacau em chocolates, derivados, turismo de origem e produtos de maior valor. O Semiárido pode combinar agricultura adaptada, caprinovinocultura, energia solar, cooperativismo e tecnologias de convivência climática. A fruticultura irrigada do Vale do São Francisco revela como água, técnica, logística e mercado podem reposicionar territórios.

Cada cadeia tem sua dinâmica. Mas todas enfrentam a mesma pergunta: como transformar produção em desenvolvimento mais duradouro?

A resposta passa por organização. Produtores isolados têm menos força para negociar, acessar tecnologia, comprar melhor, vender em escala e cumprir exigências de mercado. Cooperativas, associações, arranjos produtivos, assistência técnica, pesquisa aplicada, crédito adequado e governança territorial podem ajudar cadeias a evoluir de produção dispersa para economia estruturada.

Esse é um ponto central para o Bom Conceito: o agro não deve ser tratado apenas como setor que bate recordes, nem como campo de disputa ideológica. Ele precisa ser observado como uma das plataformas mais importantes de desenvolvimento do país, com potencial econômico real, desafios ambientais relevantes e impacto direto sobre cidades, renda, emprego, comércio, serviços e inovação.

A notícia positiva não é apenas que o agro cresce. É que o setor pode abrir novos ciclos de valor se conseguir integrar produção, ciência, logística, sustentabilidade e indústria.

O Brasil já mostrou capacidade de produzir em escala. O próximo desafio é capturar melhor o valor dessa produção.

Porque o agro do futuro não será medido apenas pelo que sai do campo.

Será medido também pelo que permanece nos territórios em forma de conhecimento, renda, tecnologia, empresas, empregos qualificados e desenvolvimento.

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