Domingo, 31 de maio de 2026Sobre nósFale conosco

Início

Notícias

Terras raras: o Brasil tem recurso estra...

Terras raras: o Brasil tem recurso estratégico, mas o desafio é transformar potencial mineral em indústria

Minerais essenciais para energia limpa, veículos elétricos, defesa e tecnologia colocam o Brasil no mapa global, mas a oportunidade depende de pesquisa, processamento, governança e agregação de valor.

Por: Redação

22/05/202622h58Atualizado

Foto Terras raras: o Brasil tem recurso estratégico, mas o desafio é transformar potencial mineral em indústria

A disputa global por terras raras deixou de ser um tema restrito à mineração. Ela passou a fazer parte das conversas sobre energia limpa, defesa, veículos elétricos, eletrônicos, inteligência artificial e segurança das cadeias produtivas.

O motivo é simples: boa parte das tecnologias que sustentam a transição energética e a economia digital depende de minerais críticos. A Agência Internacional de Energia destaca que elementos de terras raras são essenciais para ímãs permanentes usados em turbinas eólicas e motores de veículos elétricos, enquanto outros minerais críticos são fundamentais para baterias, redes elétricas e tecnologias industriais.

Esse contexto ajuda a explicar por que países desenvolvidos passaram a tratar o tema como agenda estratégica. Em 2026, ministros do G7 voltaram a discutir formas de reduzir dependências em relação às cadeias dominadas pela China, especialmente em minerais usados por setores sensíveis como defesa, semicondutores, energia renovável e mobilidade elétrica. A União Europeia também avalia estoques estratégicos de materiais como tungstênio, terras raras e gálio para reduzir vulnerabilidades de abastecimento.

É dentro desse mapa que o Brasil aparece com uma vantagem importante: o país tem reservas relevantes. Dados do USGS citados em estudos setoriais apontam o Brasil entre os maiores detentores globais de reservas de terras raras, atrás da China e à frente de outros países com presença crescente no debate mineral.

Mas essa vantagem precisa ser lida com cuidado. Ter reserva não significa, automaticamente, ter indústria. Entre identificar um recurso mineral e transformá-lo em produto tecnológico existe uma cadeia longa, cara e complexa: pesquisa geológica, licenciamento, extração, separação, refino, produção de óxidos, metais, ligas, ímãs e componentes industriais.

É nessa passagem que muitos países perdem valor.

Exportar matéria-prima pode gerar receita, mas não necessariamente cria uma base tecnológica sofisticada. O salto acontece quando o recurso mineral deixa de sair apenas como insumo bruto e passa a alimentar laboratórios, empresas de engenharia, fornecedores especializados, plantas de processamento, pesquisa aplicada, empregos qualificados e cadeias industriais de maior valor agregado.

O Brasil conhece bem esse dilema. O país possui base mineral expressiva, mas frequentemente captura menos valor do que poderia por não dominar integralmente etapas posteriores da cadeia. No caso das terras raras, essa discussão é ainda mais importante porque o maior valor não está apenas no minério. Está no conhecimento necessário para separar, purificar e transformar esses elementos em materiais usados pela indústria de ponta.

A Bahia entra nessa conversa como um território que merece atenção. Um estudo técnico do Serviço Geológico do Brasil, publicado em 2025, aponta que o contexto geológico baiano reúne uma combinação de unidades com potencial para ocorrência de terras raras e descreve o estado como um polo emergente para exploração desses elementos.

Essa informação é relevante, mas não deve ser tratada como promessa pronta. Potencial geológico não é sinônimo de mina em operação, viabilidade econômica, licença ambiental aprovada, indústria instalada ou emprego imediato. A distância entre a descoberta e o desenvolvimento é grande, e precisa ser percorrida com planejamento técnico, segurança jurídica, responsabilidade ambiental e diálogo com os territórios envolvidos.

Esse é o ponto central da pauta: a oportunidade existe, mas ela não é automática.

Se o Brasil e a Bahia quiserem participar dessa cadeia de forma mais qualificada, precisarão ir além da pergunta “onde estão os minerais?”. A pergunta mais importante é: que tipo de economia pode ser construída ao redor deles?

A resposta passa por pesquisa, universidades, centros tecnológicos, laboratórios, formação de mão de obra, empresas de engenharia, monitoramento ambiental, fornecedores locais, infraestrutura, logística, energia, governança pública e atração de investidores capazes de atuar em etapas mais sofisticadas da cadeia.

Também passa por cuidado ambiental e social. A mineração de minerais críticos pode gerar impactos sobre solo, água, paisagem, comunidades e biodiversidade. O fato de um mineral ser importante para a transição energética não elimina a necessidade de licenciamento rigoroso, transparência, controle de rejeitos, fiscalização e participação das comunidades afetadas.

Esse equilíbrio é fundamental. Terras raras não devem ser vendidas como salvação econômica, nem tratadas como ameaça automática. São uma oportunidade estratégica que exige inteligência pública e privada.

Para o Brasil, o risco é repetir um padrão conhecido: ter o recurso, atrair interesse internacional, exportar pouco valor agregado e importar de volta produtos tecnológicos caros. Para a Bahia, o desafio é evitar que um eventual ciclo mineral se limite à extração. O caminho mais interessante seria criar competências locais: conhecimento, serviços, fornecedores, qualificação, pesquisa aplicada e, quando viável, etapas de beneficiamento e processamento.

Nesse cenário, a notícia positiva não é simplesmente dizer que o país tem terras raras. A notícia relevante é que o Brasil pode entrar em uma cadeia decisiva para o futuro tecnológico e energético do mundo — desde que tenha estratégia para não ser apenas fornecedor de recurso bruto.

O mundo está buscando fontes mais seguras e diversificadas de minerais críticos. A demanda por tecnologias limpas, eletrificação, defesa e digitalização continuará pressionando cadeias globais. O Brasil tem ativos geológicos. A Bahia pode ter papel relevante nesse mapa. Mas transformar potencial em desenvolvimento exige mais do que anúncio: exige ciência, indústria, governança e visão de longo prazo.

Terras raras podem ser um caminho para inovação, emprego qualificado e desenvolvimento regional.

Mas só serão um Bom Conceito se o país conseguir transformar riqueza mineral em conhecimento, tecnologia e valor agregado.

Terras Raras
Minerais Críticos
Inovação