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Energia renovável na Bahia: entre a potência instalada, os gargalos da rede e a oportunidade de gerar desenvolvimento real

A Bahia avança em energia limpa, mas ainda precisa enfrentar gargalos de transmissão, impactos locais e o desafio de transformar geração em desenvolvimento real.

Por: Redação

22/05/202621h05

Foto Energia renovável na Bahia: entre a potência instalada, os gargalos da rede e a oportunidade de gerar desenvolvimento real

A Bahia tornou-se uma das principais fronteiras da energia renovável no Brasil. Em várias regiões do interior, torres eólicas, usinas solares, subestações e linhas de transmissão passaram a compor a paisagem, simbolizando uma mudança importante na matriz energética e na economia do estado.

Esse avanço é relevante. A transição para fontes limpas é uma agenda necessária diante das mudanças climáticas, da busca por segurança energética e da necessidade de reduzir emissões. A Bahia tem vantagens naturais importantes: vento, sol, grandes áreas disponíveis e posição estratégica no Nordeste, região que concentra parcela expressiva da geração eólica e solar do país.

Mas a história não termina na instalação das usinas.

A pergunta que precisa ser feita agora é outra: essa energia está se transformando em desenvolvimento duradouro para os territórios onde é gerada?

A resposta ainda é incompleta.

Segundo dados divulgados pelo Governo da Bahia, o estado possui centenas de usinas eólicas em operação, potência outorgada expressiva e investimentos bilionários associados à expansão das fontes renováveis. Na geração solar, a Bahia também avançou, com usinas em operação e geração distribuída presente nos 417 municípios baianos. Esses números confirmam a importância do estado na transição energética brasileira. (ba.gov.br)

Ao mesmo tempo, o próprio setor enfrenta um problema público e cada vez mais discutido: o corte de geração renovável, conhecido como curtailment. O Operador Nacional do Sistema Elétrico define essa restrição de geração como uma realidade estrutural em sistemas com alta participação de fontes renováveis, incluindo o Brasil. Na prática, parte da energia que poderia ser gerada ou entregue é limitada por razões como restrições elétricas, necessidade de equilíbrio do sistema ou ausência de capacidade suficiente para escoamento. (ons.org.br)

É nesse ponto que o discurso simples sobre energia limpa precisa ganhar mais maturidade. Não basta instalar parques eólicos e solares se a rede de transmissão não acompanha a expansão, se parte da energia não consegue ser plenamente escoada, se empreendedores são remunerados em determinadas condições sem que toda a energia chegue ao consumidor final, ou se os territórios geradores não conseguem capturar ganhos estruturais além da fase de implantação.

O paradoxo é evidente: o interior produz energia limpa, mas nem sempre consegue transformar essa produção em uma nova base industrial, em serviços permanentes ou em desenvolvimento local robusto.

Durante a implantação, os projetos movimentam obras, hospedagem, alimentação, transporte, montagem, segurança, limpeza, fornecedores, arrecadação e empregos temporários. Depois, a operação tende a exigir menos mão de obra direta. Sem uma estratégia complementar, muitos municípios ficam com impactos territoriais relevantes, mas com baixa diversificação econômica associada.

Há também impactos locais que precisam ser tratados com responsabilidade. Parques eólicos podem gerar incômodo sonoro, alterações na paisagem, efeito de sombra das pás, conflitos de uso do território e mudanças na rotina de comunidades rurais. A Fiocruz divulgou, em 2025, pesquisa sobre efeitos relatados por moradores próximos a aerogeradores, incluindo queixas relacionadas a incômodo sonoro, sono, saúde mental, perda auditiva e incômodo visual em áreas estudadas. (fiocruz.br)

No caso das usinas solares de grande porte, também há questões ambientais e territoriais a considerar. Estudos acadêmicos apontam que a instalação de grandes áreas de painéis pode alterar uso do solo, cobertura vegetal e microclima local, com possíveis efeitos sobre temperatura e dinâmica ambiental na área ocupada. Essas discussões não anulam os benefícios da energia solar, mas mostram que projetos limpos também precisam de planejamento, licenciamento, monitoramento e diálogo com comunidades. (rsdjournal.org)

Essa é a diferença entre uma narrativa publicitária e uma análise responsável. Energia renovável é parte da solução climática e energética, mas não está livre de impactos. O desafio é maximizar benefícios, reduzir danos e transformar empreendimentos em vetores reais de desenvolvimento.

Para a Bahia, isso significa avançar em pelo menos três frentes.

A primeira é infraestrutura. A expansão das fontes renováveis precisa estar conectada à ampliação e modernização da transmissão. Sem rede, a energia não chega onde deveria chegar. Sem escoamento eficiente, parte do potencial fica represado. E sem planejamento integrado, o estado corre o risco de ter geração abundante, mas baixa capacidade de transformar essa vantagem em competitividade produtiva.

A segunda é territorial. Comunidades próximas aos empreendimentos precisam ser ouvidas, monitoradas e respeitadas. A compensação econômica não pode ser o único critério de avaliação. Ruído, paisagem, saúde, rotina, uso do solo, acesso a estradas, contratos de arrendamento e impactos sociais precisam ser tratados com transparência e acompanhamento contínuo.

A terceira é econômica. A Bahia precisa fazer com que a energia renovável gere mais do que megawatts. É preciso estimular cadeias de manutenção, operação, engenharia, monitoramento, limpeza técnica, segurança, inspeção por drones, gestão ambiental, capacitação profissional, centros de suporte, fornecimento de peças e serviços especializados. Também é necessário discutir formas de atrair plantas industriais e consumidores intensivos em energia que possam se localizar próximos a polos de geração e aproveitar vantagens competitivas de uma matriz mais limpa.

Esse é o ponto de oportunidade.

A transição energética pode abrir espaço para novas empresas de manutenção e suporte, formação de técnicos, serviços de monitoramento remoto, logística de componentes, laboratórios de análise, empresas de tecnologia para gestão de ativos, soluções de armazenamento, projetos híbridos, linhas privadas de conexão, modelos de autoconsumo, contratos de energia de longo prazo e empreendimentos industriais que busquem energia renovável como diferencial.

O interior baiano não precisa ser apenas lugar onde a energia é gerada. Pode ser também lugar onde se instala uma economia de suporte, operação, inovação e consumo produtivo dessa energia.

Para isso, no entanto, é preciso abandonar a ideia de que instalar usinas, por si só, basta. O desenvolvimento não nasce automaticamente da presença de aerogeradores ou placas solares. Ele nasce quando o território organiza qualificação, infraestrutura, fornecedores, governança, uso produtivo da energia, diálogo comunitário e estratégia de longo prazo.

A boa notícia é que a Bahia tem ativos reais. Tem sol, vento, escala, presença crescente de empreendimentos, experiência acumulada e posição importante na transição energética nacional. A notícia que ainda precisa ser construída é outra: transformar essa liderança em desenvolvimento mais equilibrado, inclusivo e duradouro.

O Bom Conceito desta pauta está justamente aí. Reconhecer a potência sem esconder o problema. Valorizar a energia limpa sem ignorar gargalos. Defender a transição energética sem tratar comunidades e territórios como detalhe.

A energia renovável pode mover o futuro da Bahia. Mas, para isso, precisa ir além da geração.

Precisa chegar à rede, ao consumidor, à indústria, ao emprego qualificado, à saúde das comunidades e à economia local.

Quando sol e vento geram desenvolvimento de verdade, a transição energética deixa de ser apenas promessa. Vira Bom Conceito.

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