Reforma tributária entra na fase prática: empresas terão que aprender antes de sentir o impacto completo
Em 2026, CBS e IBS começam em fase de teste, com novas obrigações fiscais e adaptação de sistemas, documentos e processos antes da transição completa prevista para os próximos anos.
Por: Redação
23/05/2026 • 09h37
A reforma tributária do consumo deixou de ser apenas um debate legislativo e começou a entrar na rotina operacional das empresas. Em 2026, o novo modelo inicia sua fase de testes, com a presença da CBS e do IBS nos documentos fiscais e nos sistemas de apuração, ainda sem substituir integralmente os tributos atuais.
Para o empresário, o contador, o desenvolvedor de sistemas, o gestor público e o consumidor, isso significa uma transição longa. A mudança não acontecerá de uma vez. Ela passará por anos de convivência entre regras antigas e novas, exigindo adaptação gradual de processos, tecnologia, contratos, formação de preços e planejamento.
Segundo a Receita Federal, 2026 será o ano-teste da Contribuição sobre Bens e Serviços — CBS e do Imposto sobre Bens e Serviços — IBS. Nesse período, a CBS terá alíquota de 0,9% e o IBS, de 0,1%, com possibilidade de compensação do valor arrecadado com PIS e Cofins, conforme as regras oficiais.
A própria Receita orienta que, a partir de 1º de janeiro de 2026, os contribuintes estarão obrigados a emitir documentos fiscais eletrônicos com destaque da CBS e do IBS, individualizados por operação, conforme as regras e leiautes definidos em notas técnicas específicas.
Esse é o primeiro impacto concreto da reforma: antes mesmo de alterar completamente a carga tributária sentida no caixa, ela altera a forma como empresas registram, emitem, controlam e informam suas operações.
Por isso, a fase de teste não deve ser tratada como algo irrelevante. Ela funcionará como período de aprendizado institucional, fiscal e tecnológico. Empresas precisarão revisar sistemas de emissão de notas, cadastros de produtos e serviços, regras fiscais, parametrização de ERPs, integração com contabilidades, rotinas de conferência e entendimento das novas obrigações acessórias.
Para grandes empresas, a adaptação tende a envolver equipes fiscais, tecnologia, jurídico, controladoria e fornecedores de sistemas. Para empresas médias e pequenas, o desafio será diferente: entender o que muda, depender de contadores e softwares atualizados e evitar que a complexidade da transição gere erro operacional.
A reforma tributária tem uma promessa central: simplificar, ao longo do tempo, a tributação sobre o consumo, substituindo tributos como PIS, Cofins, ICMS, ISS e IPI por um modelo de IVA dual, com a CBS no âmbito federal e o IBS compartilhado entre estados e municípios. Mas a promessa de simplificação futura convive, no curto prazo, com aumento de complexidade de transição.
Essa distinção é fundamental. Uma reforma pode ser positiva no desenho final e, ao mesmo tempo, difícil na implementação. O risco para empresas não está apenas na alíquota de teste. Está nos erros de cadastro, notas emitidas de forma inconsistente, sistemas não adaptados, contratos que não consideram a transição e equipes que ainda não entendem o novo fluxo fiscal.
O Senado destacou que 2026 marca a implementação prática da reforma, ainda com valores registrados sem cobrança integral durante o ano, mas com necessidade de a contabilidade já contemplar as mudanças.
Essa etapa também terá efeitos sobre o Simples Nacional. O Comitê Gestor do Simples Nacional informou que, em setembro de 2026, empresas optantes deverão decidir se querem pagar IBS e CBS dentro do boleto único do Simples ou pelo regime regular, opção que valerá para os meses de janeiro a junho de 2027.
Esse ponto exigirá atenção especial porque pode afetar fornecedores e compradores dentro das cadeias produtivas. A escolha de regime não será apenas uma decisão burocrática. Poderá influenciar créditos tributários, competitividade, preço e relação comercial entre empresas de diferentes portes.
A reforma também muda a conversa entre empresa e contador. O contador deixará de ser apenas o profissional acionado para cumprir obrigação mensal e passará a ter papel ainda mais estratégico na interpretação da transição, revisão de cadastro fiscal, orientação de regime e prevenção de inconsistências. Empresas que tratam a área fiscal apenas como custo operacional podem descobrir tarde que erro tributário também afeta margem, preço, contrato e competitividade.
Para consumidores, os efeitos serão percebidos de forma gradual. No curto prazo, a fase de teste é mais relevante para empresas e sistemas. Ao longo da transição, porém, a forma de tributação pode influenciar preços relativos, carga por setor, transparência da nota fiscal e competitividade entre produtos e serviços.
O Bom Conceito vê nessa pauta um exemplo claro da proposta da editoria de Negócios: um tema técnico que precisa ser traduzido para decisões reais. Reforma tributária não é assunto apenas de Brasília, escritórios de advocacia ou departamentos fiscais. Ela impacta quem vende, compra, presta serviço, produz, importa, exporta, contrata tecnologia, emite nota e organiza preço.
A notícia positiva é que o país avança para uma mudança estrutural em um sistema reconhecido pela complexidade. A leitura responsável é que essa mudança exigirá tempo, adaptação e atenção. Quem esperar a transição avançar para começar a se organizar pode enfrentar mais custo, retrabalho e insegurança.
Em 2026, a reforma tributária começa a sair do papel.
E, para as empresas, aprender antes do impacto completo pode ser a diferença entre adaptação e problema.
